Saturday, March 31, 2012

SER ORIGINAL


Ser original não é ser diferente
Mas é reconhecer a sua origem
E como é simples esse caminho
Porque espontâneo e livre
Único de possível
plenitude e realização.
Descobrir-se e caminhar
Na identidade interior
Como um rio em seu leito
guarda sempre a certeza
que seu destino é o mar.
Amilcar de Castro (prof. de composição)


(Publicado em dezembro/2004 - não sei de onde roubei)
Imagem: Amanhecer, Fernando Cintra.

Ainda sobre Conselho Escolar

Penso em tomar uma decisão de fim-de-ano: ser politicamente correta onze meses do ano, no 12º tiro 30 dias para a esbórnia. Não, não vou jogar lixo na rua, deixar torneira de banheiro público aberta, vaso sanitário sujo, contar piada escatológica no restaurante ... essas são “coisas” de educação, não de consciência política.
Digamos que exaurir a capacidade produtiva da consciência política não é bom negócio. É correr o risco do discurso. Só palavras, frases de efeito e enfado.
Pensei muito quando me perguntaram: Vai se deixar corromper?
É uma questão difícil. Primeiro porque devo analisar se há algo a ser corrompido. Segundo preciso identificar qual o agente que corrompe e quais seus objetivos.
Eu creio que as pessoas estão ocupadas demais com os próprios problemas para se sobrecarregarem com a possibilidade de tramar planos destrutivos. As pessoas costumam defender seus próprios interesses, ainda que possuam uma visão estreita dos fatos.
Mas é na segunda questão que reside o detalhe decisivo: perspectiva.
A perspectiva define os rumos. E o espetáculo pode ser trágico, para quem adota outra perspectiva.
Eu bem consigo entender a atitude arrogante e manipuladora de pessoas com poucas perspectivas, realmente elas precisam, quase desesperadamente, manter o controle da situação que conhecem, com a qual estão familiarizadas e não se desgastam. Mas o desgaste que essas pessoas e suas atitudes mesquinhas provocam é um risco a ser calculado.
Conviver com pessoas mesquinhas é um desafio. É um desafio apresentar-lhes novas perspectivas, é um desafio oferecer-lhe algo que elas julguem que ainda não tenham, é um desafio desfazer equívocos e apresentar formas de agir (ou de ser) distintas das já conhecidas.
É muito difícil fazer-se entender por uma pessoa que não quer entender.
Mas também consigo entender a atitude dos acomodados, que não reclamam e participam da pantomima. Para haver manipulador, tem de haver manipulados.
Por isso vou cair na esbórnia: para conhecer aquilo que presumo condenar.
(Publicado originalmente em dezembro/2004)

Conselho Escolar

Sinto saudade de uma empregadora com quem trabalhei durante 6 anos. Encargos sociais, salários, horário respeitado. Tudo certinho. Obrigação, não favor, isso era claro para ela que deixava claro para nós. Ela era a primeira a chegar e a última a sair, verificava salas, banheiros e corredores e fechava a escola. Despedia-se do porteiro com a mesma simpatia com que cumprimentava os pais. Ganhava muito dinheiro mas cuidava das galinhas-de-ouro.
Cada um de nós sentia-se valorizado pelo trabalho que realizava, havia espaço para a iniciativa e para a criatividade, nos tornávamos autônomos sem que para isso precisássemos de consultores e Gerente de RH, equipamentos caros ou ostentação. O grau de satisfação com o trabalho era facilmente identificado: não havia rotatividade de funcionários, ocorriam poucas faltas ou atrasos, nos envolvíamos até o pescoço, não atrasávamos diários, relatórios ou planejamento. Estudávamos porque nossas escolhas e interesses eram respeitados e valorizados, éramos disciplinados pela organização interna.
Ontem não é hoje. À noite, enquanto caminho pela escola e as pessoas me abordam com reclamações, eu percebo que diferença faz um bom líder. Quando me questiono a razão de reclamarem nos meus ouvidos e evitarem tratar com a direção, eu bem sei a resposta. Qualquer local de trabalho sofre a interferência de um líder, bom ou ruim.
O bom líder é um agente aglutinador, reúne as pessoas, torna-as ativas, participa, integra, oculta-se entre muitos. O mau líder não consegue superar o cargo, simplesmente manda, dá ordens, diz como quer que seja feito, entrega papéis, culpa os outros por sua própria omissão, gera insatisfação e ainda exige deferência.
Como resultado prático: desmotivação dos responsáveis pela execução do trabalho.
Minha perspectiva atravessa a faixa líquida das convenções, sofre um pouco de distorção. Por lei posso questionar a direção, mas isso não significa pé de igualdade. Porque em igualdade está quem desenvolve algo junto, quem compartilha metas e responsabilidades. Fora disso é discurso.
(Publicado originalmente em dezembro/2004)

Discrição

A discrição é a melhor salvaguarda dos relacionados interpessoais. É o respeito à individualidade; respeito à individualidade de quem vivencia um problema e respeito à individualidade de quem observa. Comentar, ou não, os aspectos desagradáveis de problemas é uma decisão que inclui avaliar sentimentos alheios.
A reserva não é uma defesa orgulhosa como se houvesse a possibilidade de incitar demônios por meio do cheiro de sangue. Também não é omissão ou ignorância, nem vergonha do estigma. A reserva serve para poupar a dignidade de quem está fragilizado. E evitar constrangimento social para quem não quer envolver-se com uma situação que não interessa.
O constrangimento social deve ser evitado, sempre.
Situar e dimensionar um problema e compreender qual a relação com a causa nos torna agentes de mudança. Mudança em nosso próprio comportamento, e, em ocasiões propícias, do comportamento dos outros.
(Publicado originalmente em dezembro/2004)

nada permanece mais tempo do que o necessário

É ... tô ficando velha. Não que eu convença como uma exemplar senhora de meia-idade, com minhas roupinhas bem-comportadas e minha vidinha doméstica convencional, mas que eu tô ficando velha, ah isso é verdade.

Invariavelmente estou perdida no tempo. Algumas efemérides ajudam a compreender a passagem dos anos. Trilhas sonoras também.

Quando comecei a perceber?

As primeira rugas, os fios de cabelo clareando, a lei da gravidade ... os filmes que já não são encontrados nas locadoras, as locadoras que já nem existem, a dificuldade de encontrar agulhas para ouvir um bolachão no aparelho de som. O Scandurra ficou mais careca, a Leilane Neubarth ganhou uns quilinhos e rugas indisfarçáveis, passei a detestar chocolate ao leite, descobri que não sou suficientemente adestrada para os comandos do Play Station ... com tudo isso é possível conviver harmoniosamente. O problema são outros.

Primeiro que, embora eu seja egocêntrica, não me animo a dar ordens, não tenho a mínima inclinação para fiscalizar bolsos, agendas, celulares e afins, e, principalmente, prefiro que as pessoas sejam autônomas ou pelo menos que assumam que são responsáveis pela felicidade, pela saúde e pelo caminho que escolherem.

Segundo, eu faria tudo o que fiz outra vez. Mas a medida que minhas filhas caminham sozinhas ... surge o maior dilema: depois de educar para a vida, seria um contra-censo mantê-las sob as minhas saias. Não é possível fazer qualquer coisa que seja OUTRA VEZ ...

O que passou, o que foi feito, serviu à uma época, agora as necessidades, oportunidades e desafios são outros. Para nós, para mim, para cada uma delas. Curioso é que sempre tem alguém que resolve lembrar que elas “cresceram” ... Cresceram? Isso quer dizer que já escolhem os amigos e organizam a própria agenda ... deixando um espaço aberto na minha agenda ... mas isso não aconteceu em nenhuma data especial.

São passagens suaves, como um fractal, onde as pequenas alterações produzem progressivamente as alterações seguintes. Vida ampliada, novos rumos, novas alternativas. Nada permanece por muito tempo: tristeza, alegria, conquistas, negociações, investimentos, ... tudo passa, até aqueles momentos fundamentais de dúvida ou questionamento, nada permanece mais tempo do que o necessário.
(Publicado originalmente em dezembro/2004)

boas lembranças

Rodando na cidade, reconheci a capela onde velaram o corpo de Fernando. Tento lembrar, mas algo em mim bloqueia a informação. Início de 2008? Final de 2007?
Fiz pior no velório: simplesmente não reconheci o corpo. Eu olhava, as pessoas confirmavam, mas eu não atendia. Não foi um bom dia. Eu preferi guardar na memória o Fernando que conheci.


Conheci Fernando no Revellion de 2004. Ele estava com 54 anos, era adepto da filosofia ayuvéda e de práticas yogues e se negava a consultar médicos. As filhas (da mesma idade que eu) moravam em Brasília, o filho nos EUA.

Nós nos dávamos bem, ele falava um bocado, eu gostava de escutá-lo. O melhor em Fernando é que ele não temia o silêncio. Costumava ficar quieto quando lembrava do filho indo para o Iraque. Fernando viajava muito, nos víamos de tempo em tempo, mas ele era sempre o mesmo.

Quando diagnosticaram, o cancer já estava em estado avançado. Fernando me proibiu de ir ao hospital, me proibiu de acompanhar o tratamento. Há algum tempo perdi o link das obras. Pensei que os filhos pudessem ter retirado o site do ar. Procurei no Google images e encontrei o site que Fernando Cintra deixou.

Olho o foto no site, também não é o Fernando que conheci. Mas as telas, são sim, as marcas da sensibilidade que sou capaz de reconhecer.
Felicidade, de Fernando Cintra

Monday, March 26, 2012

mudança de itinerário

É através da arte de escutar que seu espírito se enche de fé e devoção e que você se torna capaz de cultivar a alegria interior e o equilíbrio da mente.
A arte de escutar lhe permite alcançar sabedoria, superando toda ignorância. Então, é vantajoso dedicar-se a ela, mesmo que isto lhe custe a vida.
A arte de escutar é como uma luz que dissipa a escuridão da ignorância.  (atribuído à Dalai Lama)


Ninguém é puramente auditivo, embora os outros canais de percepção possam ser suplantados em casos de emergência. Pode ser que custe a vida, ou, talvez, algo que já não serve para a continuidade da fluência da vida.

A vida continua. Pouca gente lembra de comentar que sabedoria traz consigo mansidão, aquele jeito de vaquinha de presépio. A mansidão bovina, olhos ruminantes. Escutar. Acomodar o que dizem, deixar-se permear pelas impressões alheias, confrontar. Equilibrar. Descartar o discurso personalíssimo e guardar no silêncio as prerrogativas que orientam.
Caminho leve sobre meus passos, carrego poucas coisas que não me pertencem.
As notícias chegam em abraços daqueles que me conhecem melhor porque sabem que as palavras não servem. Não me iludem reclamando, não me iludem elogiando, mas me convencem quando olham-me nos olhos com familiaridade e cumplicidade. Quando me abraçam, ausculto o coração.

Saturday, March 24, 2012

Entre mortos e feridos, sobram heróis e convencidos.

Já há algumas semanas sonho com uma enfermaria lotada de crianças; há sempre uma mulher clara, alta, de cabelos presos, mas sei que são cacheados. Penso que o nome dela é Cristina. No sonho mais recente, ela disse-me algo que me perturbou, saí da enfermaria e fui encontrar uma menina de olhos escuros, rosto fino e cabelos escuros e lisos. Estávamos do lado de fora de uma casa, o dia nascia. Conversei com ela até os proprietários abrirem a porta e nos encontrarem. Conversei com o casal, a mulher perguntou o que eu estava fazendo. O tom indicava perplexidade, sem censura. Os mais jovens apareceram, havia reconhecimento e tranquilidade. Um deles me entregou um pacote e sei que devo guardá-lo até ele voltar. O dono da casa ficou aborrecido. Eu o olhei, severa, sei o que conquistei, ele sabe também. Acordo com a certeza: vou encontrar Cristina.

Na terça me despedi dos amados do almoxarifado. Thales chorou. Nos perdemos na fila de abraços. Em cada pausa do dia as lágrimas de Thales me incomodavam. Na quinta as notícias correram: o pessoal da hotelaria reagiu mal, as meninas de vendas choraram e Claudio rebelou-se. Logo ele, tão sereno.

Fui ao Centro, peguei minha ficha e sentei-me no meio de tantos outros que procuram um pouco de sossego, o incomodo de deixar Thales pesando. Foi quando a vi passar.  Depois ela voltou com uma prancheta na mão, rastreou, parou à minha frente e perguntou o número da ficha e o meu nome. Olho o bolso do jaleco: Cristina.

Ela psicografou a mensagem. Eu fiquei grata. Como sempre, não sei bem o que fazer. Como se diz "oi, vejo você nos meus sonhos" ? Será que ela me vê?
Encontrei minha equipe de trabalho. A mensagem me conforta e certifica.

Sunday, March 18, 2012

Domingo uterino

Amo trilhas ...



Percurso definido. Ritmo. Cantos que não conheço. Bromélias. Espinhos. Serrapilheira. Galhos. Cipós. Verde, cinza quase verde. Umidade. Sombra. Útero.
Alcanço a duna, escalo afundando na ladeira de areia. Me apóio, me seguro. Enfim, contemplar o mar. Oceano aberto, exposto.
Congratulações. Sorrisos. Pergunto, 6 km.
Depois, alcançamos a praia, lavamos os pés no sal.

Saturday, March 17, 2012

As Gabrielas de Tom Jobim

André Mehmari & Ná Ozzetti - Suíte Gabriela

Gabriela, um ser mulher

Desconfio, só um pouco, que os autores projetam as musas que desejam para si. Como é que Gabriela, expulsa do interior pela miséria e pela seca, cozinhava tão bem? Ah, quem cozinhava bem era a Zélia. Mas Zélia não era Amélia, era anarquista, graças à Deus!

De resto, há muitas versões ... Gabriela de Tom Jobim, Gabriela de Dorival Caimmy. A da Sônia Braga! Mas sempre Gabriela.

Um naipe é pouco para a história. Na composição de Tom Jobim, personagens se revelam em um longo desfile das impressões e marcas de Gabriela. Só uma voz não dá conta do recado.Reconheço a simplicidade de Gabriela, o ressentimento de Nassib e o destempero de Tonico, e o inconformismo do lavrador. Tem mais alguém? Talvez Malvina.

Malvina, a sensibilidade aguçada salvando a dignidade de Nacib. Ah, sim, Malvina me emociona. Enfim, Nacib queria fazer de Gabriela uma mulher "respeitada", destarte sua condição de retirante morta de fome, destarte seu feitio simples e gentil, e pouco afeito às convenções sociais. Quando o carnaval arrastou Gabriela, Malvina correu atrás e reduziu o escandalo. (Adoro o trecho da folia de carnaval.)

Gabriela e Carmem, mulheres subversivas; intensas em sua naturalidade para viver a vida, ávidas em suas buscas, em suas construções. Tolhidas pela possessividade. Uma domesticada, a outra eliminada sem direito a reclamar sua origem! Mas Carmem é uma outra versão, uma outra história.

atual?

"Uma pessoa egocêntrica é aquela que só é capaz de interagir com  as pessoas e as coisas se absolutamente tudo girar em  torno do seu "eu". Ela, e somente ela, deve ser o centro das atenções, a ela devem pertencer os melhores cargos para que o seu nome permaneça em  evidência. De tanto pensar em  si, nos seus pensamentos não há lugar para mais ninguém... O egoísta não admite que a atenção das pessoas não esteja no que ele pensa e a forma como julga todas as coisas; acredita que todos ao seu redor, por gratidão, lhe devem  favores... "


A reflexão acima é de um  pastor. Mas cabe aqui, neste blog, pois vem  ao encontro às minhas próprias reflexões.

Primeiro, o egoísta necessita da anulação da vontade dos outros.

Segundo, o egocêntrico aliena as possibilidades de realização pessoal dos outros e de si próprio.

Terceiro, os “favores” úteis à vaidade do egocêntrico são, muitas das vezes, meras distorções de situações reais.

Quarto, o egocêntrico é pouco seletivo.

O que mais combato em mim mesma é a ilusão de fazer algo pelos outros. A gente pode até incentivar, dialogar, orientar, mas nunca “faz” pelo outro. É o outro que precisa imprimir vontade e esforço para conquistar o que deseja.


(Publicado originalmente em 23/nov/2011)

" ... todas as coisas nobres são tão dificeis quanto raras ..."


De certa forma, queremos que algo mude de um  momento para o outro. Destarte nosso desejo, tudo em  que estamos envolvidos precisa ser ajustado gradativamente, até que se complete talvez um ciclo, talvez uma obra.

O tempo investido em  algo que nos faz crescer e amadurecer parece, quase sempre, escoar como areia pelo vão dos dedos, mas como areia, não como água, o que nos dá uma certa vantagem: podemos comprimir os dedos.

Spinoza admitiu que “todas as coisas nobres são tão difíceis quanto raras”; considerando o que ele passou, em  termos de perseguição ideológica, resolvi pesquisar alguns argumentos dele para justificar a afirmação.

Todo comportamento humano resulta de desejo ou a percepção de dor. Mas Spinoza assinalou uma distinção crucial entre dois tipos de casos: Às vezes somos completamente descuidados das causas que estão ocultas e somos simplesmente subjugados pela força de nossas paixões momentâneas. Mas em  outros momentos temos conhecimento dos motivos que nos movem  e podemos participar como que de uma ação deliberada porque reconhecemos nosso lugar dentro do esquema principal de realidade como um  todo.

Podemos participar, e isso supõe fazer escolhas, tomar decisões, assumir nosso lugar. Isso dá trabalho ... mas nos torna livres.

Para Spinoza, liberdade é autodeterminação, então quando adquirimos o conhecimento adequado das emoções e desejos que são as causas internas de todas as nossas ações, quando entendemos por que fazemos o que fazemos, então nos tornamos verdadeiramente livres.
(Publicado originalmente em 16/11/2004)











mudança necessária

Mudar de plataforma é quase inevitável. Por segurança trago meus textos antigos de outro blog, que não quero encerrar, mas que  é limitado em  termos de conectividade.

Nem  tudo quero resgatar, há coisa inútil, sim.  Mas também  há o que manter, seja como lembrança, seja como referência de algo que havia antes e não sei se ainda permanece.  O primeiro blog que experimentei, deletei, removi, exclui. Depois veio a marca.
O primeiro post sob Autoria do Feminino:

Uma breve explicação
Autoria do feminino é uma expressão que ouvi há alguns anos.
Creio que é uma construção. Algo que vai sendo (re)criado o tempo todo.
É como lançar um olhar sobre o mundo, refletir, encontrar formas de expressão. Assinar embaixo.
Autoria remete à autor, à criar. À ex-pôr a própria percepção. Reconhecê-la como pessoal e intransferível.

Feminino, não feminista, ou machista, ou qualquer outro ista. Está mais para o feminino das tradições orientais, cíclicas, inclusivas, dinâmicas. Ainda está por criar.
(publicado originalmente em  10/11/2004)

Wednesday, March 14, 2012

O texto, por Pierre Lévy


" O vocábulo texto, etimologicamente, contém a antiga técnica feminina de tecer. E talvez o fato desse tricô de verbos e nomes, através do qual tentamos reter o sentido, ser designado por um termo quase têxtil não seja uma coincidência. A humanidade, espécie falante, é também a raça que se veste. A roupa pacientemente tecida nos contém, nos delimita, forma uma interface colorida entre o calor de nossas peles e a rigidez do mundo.
Os coletivos também cosem, através da linguagem e de todos os sistemas simbólicos de que dispõem, uma tela de tecidos destinada a reuni-los e talvez a protegê-los dos estilhaços dispersos, insensatos do futuro; uma capa de palavras capaz de abrigá-los da contingência radical que perfura a camada protetora dos sentidos e mistura-se, à sua revelia."

Lévy, Pierre. AS TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA: O FUTURO DO PENSAMENTO NA ERA DA INFORMÁTICA. Tradução Carlos Irineu da Costa.


Eu devia aprender francês para escapar das traduções. Ainda assim, devoro as páginas, agradecida pela chuva que inundou a cidade e me ilhou entre ideias que não são minhas, mas me seduzem. Seguram-me.

Enquanto percorro a linha de raciocínio penso, também, nas formas de expressão que elegi (junto com boa parte da humanidade). É preciso comunicar-se na mesma linguagem? Nos adaptamos à diversidade de expressões do cotidiano, constituímos nossos signos e símbolos, para transmiti-los à nova geração que irá desconstituí-los e transformá-los. Recriando-os, conformando-os à interpretação de uma outra humanidade.

Há uma sugestão em Levy que deslumbra: a oralidade!

Somos, afinal, orais? Não há pontuação que dê conta das nuances das emoções. O texto formal é, enquanto construção acordada entre o autor e o leitor, um breve esforço de comunicação.

Seremos gentis, em um acordo tácito. Concordaremos polidamente com o que for socialmente aceito ou politicamente correto. Reproduziremos para significar e representar a felicidade como a projetamos. Torre de Babel.


Como instalar pontes onde cada qual quer seu discurso? Tanta coisa esquecida nas dobras do pensamento.

Os clãs. Versão europeia para as tribos, anterior à formação dos feudos e da civilização. Esquecemos. Deixamos para trás, como algo tosco.

Os guetos. As saídas.

Tuesday, March 13, 2012

Sigma

by Geysa

Play list Coral Sigma

Lista de músicas para o Coral. Difícil decidir. Só dez? Assim já é crueldade!Paro de reclamar, estabeleço um critério, mais um, e mãos à obra, ouvidos atentos:

1.       Algo que me divirta! A letra tem que me encantar!

Cantando no toró - Chico Buarque
Amor Barato - Francis Hime & Chico Buarque

2.       Sonoridade: quantas vozes cabem numa canção? Quantas nuances?

Segue o seco - Marisa Monte
Água também é margem - Marisa Monte
Dois Rios - Skank

3.       Canto para quem? Sugestões dos amados, claro!

Linda Baby - Pedro Mendes (Zélia&Tatai)
Construção - Chico Buarque (Guga)
Mata Virgem - Raul Seixas (Guiga)
Ainda Bem - Marisa Monte (Tau&Miu)
e uma de MADREDEUS

Sunday, March 11, 2012

feliz aniversário, atrasado como sempre

Eu não sei o dia, e o anjo mais velho não se importa. Claro, em mais um conto mediúnico, as datas não importam.

Cidade nas Minas Gerais, casas de base de pedra. Estavam na praça, ela Mirtes. Ele o filho do juiz. Ela cometeu um crime, ele se ofereceu para evitar a prisão em celas sujas, com toda a sorte de gente e miséria. Um preço justo: casar-se.

Renasceram em outra vida, ele na planície, ela distante. Ainda garoto subiu e desceu serras, circulando pela cidade que era dela, mas sem se encontrarem. Ainda não seria o tempo. Ela se foi para a planície, mais tarde ele voltou também.

O início dos sonhos surpreendeu-a adulta e maternal. Via-o, ouvia-o e pensava que era um anjo, um amigo de outras dimensões. Quando o irmão levou-o para casa, e encontraram-se no plano físico, o estranhamento instalou-se. Ela não quis acreditar que a voz e o porte fossem os mesmos. Tão iguais, como uma alucinação. Perdeu-o nos sonhos. Temia pela liberdade de encontrá-lo.

Ele emprestou-lhe os olhos para compartilhar com ela a visão. Ela cingiu-lhe as asas, fazendo-o caminhar pela terra. Ela acostumou-se ao olhar dele, aos chamados e a presença exigente. Ele habituou-se aos dependentes dela. Auscutando o coração dele, ela recuperou a identidade e a certeza. O tempo de estarem juntos. Anos em que ela mostrou o caminho que queria e se fez acompanhar pelos ideais dele. Anos encantados. Até ele cobrar um preço justo.

Depois de seis anos, ela soltou as asas, quando abriu-as ele destruiu tudo ao redor. Ela sabia antes dele. E não queria que ele deixasse tudo por ela. Haviam os planos que ele precisava traçar e realizar sem os limites dela.

Ele afastou-se, mas comprou a casa que ela adorava. Onde a varanda abre-se para o pôr de sol atrás da mata em Segredo. Deixou a porta aberta. Sem necessidade. Quase vinte anos depois ela procurou-o nos sonhos e disse o que queria. Ele atendeu a vontade.

A porta permanece aberta, mas Mirtes conhece o caminho para a alma dele, não precisa de chaves.

Saturday, March 10, 2012

AR 1429


O sol explodiu e desintegrou uma barreira. E nos últimos dias ando leve, consciente de que eu ganhei mais espaço para criar.


Depois da fase de curiosidade cheguei ao vazio, onde não preciso da visão, dispenso a audição, pausas e ruídos. Confortavelmente sinto a mente aquietar-se e desfaço o hábito da pele.
Algo se expande e flui incontinente  onde se cria  a realidade.  Alguns chamam  de estado de graça, outros de alegria, eu não me importo com o nome que se dá, as palavras não servem, deixam  muito a desejar.

Transgredi algo? Não que me lembre. Dessa vez não quebrei nada, não roubei nada, não saltei abismos impostos, nenhuma decepção, nada que me atraísse ou repelisse. 
Apenas percebi que é domínio meu.

Tuesday, March 06, 2012

em outro dezembro

Nasci serrana, em altitude considerável, no outono.

Algumas idas e vindas pelo sul do país e tornei-me serrana novamente, lá pras bandas do Centro Oeste, onde o inverno é mais seco que frio, em noites longas e estreladas.

Vivia em ponto de encontro: no alto da serra não tão alta, entre o Pantanal e o Rio Paraná. Encontro de estradas de ferro e rodovias. Das rotas de migração dos pássaros. Das gentes paraguaias, bolivianas, brasileiras. Serra enrugada e derruída, origem das planícies tranqüilas e férteis.

Mudei, mudei para outro ponto de encontro: encontro das correntes oceânicas e dos ventos.

Encontro das gentes nativas e estrangeiras. Encontro de cetáceos e alimentos. Dunas desenhadas ao vento.

Meu sotaque acusa tanta andança e matulas no farnel, que falo pouco e baixo, sussurro verdades que parecem mentiras. Olho o mar, com suas ondas salgadas, abertas em leques sobre a areia; respiro o céu dos dias quentes e repletos de luz desde as cinco da manhã ... sinto o estranhamento dos pés acostumados ao leito dos rios, ouvidos saudosos do silêncio e do burburinho na queda d´água, retinas e pele sequiosas da frescura das matas sombreadas ...

Encontro aquilo que me falta e assusta, ignorando estruturas tão antigas quanto ocultas, surpresa por não saber que sabia tão pouco ... encontro-me em um verão eterno.
(Original postado em dezembro/2004)
Fonte: MRE


Saturday, March 03, 2012

Mas sempre encontro o sorriso ...

Eu estava distraída quando ouvi um barulhinho, olhei e vi um menino. Ele sorria para mim tão seguro e a vontade que eu ri. Olhei para a mãe, enrolada com trocentas sacolas, ele divertindo-se agarrado à perna dela. Ela riu para ele. Ele me olhou e riu! Me contagiando!
Levantei rindo, ele aboletou-se na cadeira já esquecido da minha presença.
Fui encontrar outra cadeira ... rindo!
Tanto por tão pouco! Isso me lembra:


O Teatro Mágico - Eu não sei na verdade quem eu sou