Sunday, April 29, 2012

bifásico

Quando ouvi Problemas (Ana Carolina)  pela primeira vez, achei graça. Tipo "mais do mesmo". Tipo Aerosmith. A fórmula que deu certo.

Sempre que eu encontro uma saída
Você muda de sonho e mexe na minha vida
Se pra você a guerra está perdida
Olha que eu mudo os meus sonhos,
Pra ficar na sua vida!


Tipo Quem de nós dois:
Mas toda vez que eu procuro uma saída
Acabo entrando sem querer na tua vida

Ouço-as, e ... ãn ... talvez alguns romances mereçam uma trilha sonora tipo "mais do mesmo", tipo "eu confesso que ainda me preocupo com você". Tipo "não desista, porque eu não sei abandonar você". Tipo "custa me dizer que está tudo bem, e que não precisa mais de mim?"
Claro que fica a dúvida, tipo "é melhor sem você?".

Monday, April 23, 2012

eclipse total

"Every now and then I get a little bit angry and I know I've got to get out and cry ... Every now and then I get a little bit terrified  ..."
Snif ... buáá ...

Fui transferida, mas não estou transferida.

As coisas deveriam ser mais simples. Não sou presunçosa a ponto de me considerar essencial e insubistituível. Nem vaidosa o bastante para me deixar seduzir.
Eu ouvi a clara referência ao poder. Então, eu posso? Nem sei se quero descobrir a extensão do poder que pareço deter. A ignorância é útil, a ilusão não. Mantenho os sentidos voltados para continuar, para manter-me na rota, acompanhar o movimento do qual faço parte. A vida continua.

Na década de 80 eu decorei Total Eclipse of Heart (Bonnie Tyler). Naquela época nem cogitava a existência de emos e me considerava uma adolescente normal. Hoje já nem sei o que considerar normal.

Saturday, April 21, 2012

palavras

“A palavra só me interessa quando é o contrário de uma proteção: um risco, uma abertura, uma confissão ... gosto que falem ... para parar de se esconder.” (Comte-Sponville, 1992)

 O que acontece quando encontramos pessoas que pararam de se esconder? E nós, quando paramos? Paramos de nos esconder quando confiamos em alguém? Mas o que nosleva à confiança?

A certeza de que a pessoa não vai nos trair?

A certeza de que a pessoa não tem poder suficiente sobre nós?

Ou a certeza de que a pessoa tem vida própria e ocupa-se de si mesma?

Ou será que paramos de nos esconder quando percebemos que a nossa vida é igual à de tantas outras pessoas?

(publicado originalmente em 15/jan/2005)

Combina com pipoca: Elvis e Madona



Surpreendente: filme família!
A história central é do casal Elvis e Madona, mas há outras histórias. A amizade sustenta o segundo plano. O salão de beleza e a pizzaria são palcos onde as relações se contróem e afirmam.
Adorei a cena teatral dos cachos de Madona espalhados pelo chão do apartamento e sua aparição masculinizada. Coisa de mulher, mistérios de mulher que comunica seus sentimentos e desejos.

Tuesday, April 10, 2012

digressões ...


Por uma citação de Yourcenar ...

Os dias passam, céleres, lembrei de Piaget afirmando que é preciso desacomodar uma estrutura tida como satisfatória para incitar o ciclo de aprendizagem. Então, seria insatisfação ...
Procuramos alhures (livros, filmes ... qualquer veículo de expressão) o que deveríamos refletir sem necessidade de estímulo externo?
E se cada livro (ou outro veículo) detenha em si uma contribuição ao despertar da consciência (que poderia ser coletiva, individual, cósmica) ... por que deveríamos encerrar a leitura tristes pela desilusão provocada?

A vida é curta, e nenhuma religião me propôs um paraíso com biblioteca. Então tenho que ler o que há por aqui, destarte traduções descuidadas a preços populares, e, talvez, habituar-me a lembrar, como se fosse um epílogo, a citação de Yourcenar. Cada leitura me trará alguma decepção ... viverei de cinzas, do que já foi combustível e calor para alguém, mas que enregelará o que resta de crente em mim !?!

O que os olhos não vêem ... já faz anos que adotei a crença nos pequenos milagres. A ciência não é neutra, mas a biotecnologia avança a passos largos e imprevisíveis. A gente descobre, no caminho, que vale pouco mais que uma Drosófila ... que os genes da raça negra são mais resistentes e reduzem a propensão a certos males ... que a engenharia ortomolecular pode resolver o problema da fome no mundo ... que o mundo não se constituiu para servir de parquinho para o ser humano. Que mais dia, menos dia, Gaya faz uma seleção e elimina as pragas, independente do sentimento antropocentrista que nos sustenta. (Gosto da idéia de que Deus provocou o Terremomo/maremoto para mudar a posição do planeta e coloca-lo no caminho de um cometa ... amei essa!)

Talvez eu termine minhas leituras com menos fé, talvez eu pare de ler para não sentir-me tão insatisfeita ... talvez ... talvez eu me renda definitivamente aos textos técnicos, que de tão surpreendentes, conduzem-me ao mundo onírico das possibilidades atemporais, onde a natureza emprega tenazmente seus recursos em função da sobrevivência. Para além do bem ou do mal.

(Publicado originalmente em 12/jan/2005)

Sunday, April 08, 2012

Combina com pipoca: Hotel Rwanda

Hotel Rwanda envereda pela ambiguidade. Apesar de longo (2 horas) mantém o ritmo, sem abusar de violência. A perplexidade e o desespero dão a tônica do drama.
O conflito é humano. Apoiados em questões tribais, grupos de oposição ao governo se organizaram para realizar uma “limpeza étnica”escamoteando outros motivos, como a pobreza da maioria da população, a opressão, o desemprego, a corrupção das autoridades. Em 94, quando ocorreu o genocídio em Ruanda, o mundo enxergava apenas o conflito tribal, perspectiva que o filme questiona a partir da história de Paul Rusesabagina, gerente de hotel que se vê impelido a participar do conflito entre tutsis (criadores de animais) e hutus (agricultores). Embora a situação familiar de Paul Rusesabagina seja destacada no filme, serve de viés para apresentar os fatos que tumultuaram o país durante alguns meses.

Logo nas primeiras cenas, a corrupção e o clientelismo são evidenciados, concorrendo com as imagens de pobreza e instabilidade política, que dão margem à manipulação.
Paul Rusesabagina é envolvido quando os vizinhos abrigam-se em sua casa, a partir daí os dilemas vão se apresentando progressivamente, possibilitando outras abordagens: o papel da imprensa na cobertura dos fatos e mobilização da opinião pública; a atuação da ONU e os interesses dos investidores estrangeiros.
A violência sugerida aterroriza, assim como o desamparo da população. Os diálogos constróem a imagem do conflito e pontuam a evolução do genocídio, alinhavando as contradições inerentes à busca de sobrevivência. Quando Paul Rusesabagina negocia os primeiros personagens, dá voz a ideologia que mobilizava a corrupção; quando pergunta aos funcionários se preferem colaborar ou sair do hotel, expõe o risco que corriam; quando orienta os “hóspedes” a buscar ajuda ou quando sugere a esposa que se suicide, a argumentação revela um ser humano obrigado a liderar, a tomar decisões e mobilizar outras pessoas.

Lição de liderança tendo como fundo a condição humana.

Thursday, April 05, 2012

Quebra de paradigma?

A economia brasileira deixará de produzir 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial devido ao elevado número de feriados, valor equivalente ao dobro do orçamento do Ministério dos Transportes para este ano. Em 2011, as perdas atingiram 3,8% do PIB.


Feriados quebram a rotina. Páscoa quebra tudo.
Quebra o ritmo das ruas, dos humores, o orçamento, a dieta. Dá-lhe bacalhau, chocolate, vinho e colomba pascal.
A Páscoa, mesmo sendo um feriado religioso, é feriado em doses homeopáticas, vai se instalando sem que se perceba o efeito.
Primeiro tem a Quaresma, para uns a reflexão sobre a fuga dos judeus do Egito; para outros os dias que Jesus passou em meditação no deserto. Independente da fé professada a reflexão é regida por valores que evocam virtudes.
Guarda-se a Quaresma no interior do país e no saber dos antigos como preceito absoluto, inquestionável: cobrir santos e espelhos, jejum, abstinência da carne. Nos grandes centros, onde o cotidiano exige mais ação e menos romantismo, a praticidade exige mais tolerância. Para os mais jovens, são dias de burlar as tradições.
Depois vem o Domingo de Ramos, frescor que anuncia o devir da normalidade em tapetes de serragem e flores destituídos pela passagem da fé, efêmeros como mandalas budistas.
Então a Páscoa; antes do "liberou geral" , um dia para recordar o sacrifício e aceitar o conselho dos avós que não deixam nem varrer a casa ... preguiça autorizada. Segue-se o sábado, para malhar o Judas (me perdoem os judeus), e escarnecer da traição, da falsidade, e de todos os defeitos alheios projetados sobre aqueles que discordam de nossas convicções. Violência conduzida, insuflada, sustentada pela tradição e mantida pela catarse dos mais jovens ou imaturos.
Domingo! Folguedos e risos infantis, reconciliação dos antigos com os costumes heréges das novas gerações. A maioria dos brasileiros segue as tradições cristãs ou judaicas, os preceitos orientam a reflexão; o diálogo entre as gerações, a conciliação de interesses. Na Páscoa celebra-se o renascimento depois do sacríficio.
Os feriados são pedras no sapato dos capitalistas tradicionais. Felizmente uma nova ordem de gestores, em seus altos cargos, compreende que feriados como a Páscoa contribuem para a melhoria da qualidade de vida dos funcionários.
Não é preciso comprar ovos de chocolate, nem bombons, basta ceder o tempo à família, com os valores que dão sentido à vida. Os funcionários agradecem valorizando o emprego, por consequência a empresa.
Seria bom que, de vez em quando, algum estatístico mensurasse o Índice de Felicidade e o convertesse em valores financeiros, comprovando, talvez, que um feriado não precisa ser um buraco na planilha de custos, pode muito bem ser a porta de entrada para funcionários colaborativos.

Monday, April 02, 2012

Coisinhas

Quando não éramos tão virtuais, guardávamos coisinhas em caixas. Recortes, letras de música, pedaços de ingresso, embalagem de bombom. As coisinhas tinham cheiro, faziam delicados barulhinhos ...






Eu colecionava tiras humorísticas. Meu preferido era Hagar, o Horrível!
Havia espaço para Calvim e Garfield, populares e engraçados.
Entre os brasileiros, adoro Niquel Nausea. Humor corrosivo.

Brum tem traço simples. Fácil, como deve ser.