Monday, July 13, 2009

O conto, os pontos.

O conto era de Marina Colasanti. Lembro-me quando bordo do bordadeira que descia pelo fio da linha até incorporar-se ao bordado, um dia a irmã, sem querer, bordou-a, prendendo-a na trama do tecido...
Comecei a bordar, quando ainda acreditava que seria uma dona-de-casa prendada, depois de um tempo meu perfeccionismo revelou-se por inteiro, até que atingi a mestria. O ponto cruz já não era o bastante, cheguei a aprender ponto sombra ... então, a supremacia: Richilieu.
Sempre volto aos bordados. É fácil perceber: sinto pressa de voltar ao tecido.
Depois de alguns anos comecei a preencher o tecido com matizes, até conseguir a tapeçaria. Auto-didata. Deveria me orgulhar disso, mas não vem ao caso. Não sou tão medíocre a ponto de ignorar que bordo bem, não tenho vergonha de reconhecer a beleza do que faço, e só: sem vaidade.
Flores. Pétalas coloridas. Efeitos de luz e sombra. Tudo feito para destacar a delicadeza da passagem e do encontro. Cores preenchendo o vazio, inundando os olhos.

Da dedicação nasce o presente. Não consigo vender o que faço. São feitos para presentear. Quando não tenho para quem bordar, o caminho é a doação, qualquer bazar beneficente.

Thursday, July 09, 2009

Insônia

Houve o tempo dos sem-alguma coisa. Sem-teto, sem escola, aquelas minorias gigantes que reclamavam seus direitos e recebiam algum tipo de benefício do governo. Quando encontrei causa própria (a das sem-pensão alimentícia), o IBGE reconheceu "oficialmente" a existência de famílias chefiadas por mulheres. "Oficialmente" ...
Estamos no tempo da inclusão; seria engraçado se eu pudesse afirmar dramaticamente:
Tenho síndrome de Asperger.

Teria, enfim, uma bandeira. Haveria comoção popular? Eu seria perdoada por não reconhecer a fisionomia das pessoas conhecidas? Seria perdoada por ser sem-noção? Compreenderia quando me ofendessem?
Pelo sim, pelo não, nunca coloquei os pés em um consultório psiquiátrico para fazer uma avaliação. Receio que a resposta seja sim, e que eu nunca vou ter jeito (embora nem me importe muito com isso, apenas não gosto da idéia de fazer os outros sofrerem).
As vezes leio a crônica dos Vagotônicos de Vinicius de Moraes, e sinto uma certa tranquilidade em não ser o que os outros desejam, em não atender as expectativas alheias, essas coisas ...
Não sou contra a inclusão, apenas acho graça na mania que as pessoas tem de procurar uma tese, um veredito, teoriazinha qualquer para justificar seu comportamento pessoal.
Nem quero me consertar ou justificar. É uma noite de insônia e eu tenho direito a dizer bobagens.

Wednesday, July 08, 2009

Leitura subversiva!

Lá no livrinho havia uma instrução: Crie um diário ...
não fosse meu trabalho, não leria coisas assim, minha alma tem fome de Dostoievski, desejo intenso de mergulhar em páginas que exalam a acidez de décadas engorduradas, DNA de não sei quem já velho e morimbundo incrustado nas páginas amarelecidas.
Mas o livrinho (pequeno, mesmo, formato bolso, folhas de papel couché) sugeria um diário para desenvolver a memória, a habilidade de observação ... e eu ali, lendo e pensando na minha falta de habilidade para me relacionar com as pessoas. Li, à murros.

Mas vá lá, que em tempos muderrnus eu goste de blogs, gosto a ponto de não apagar o antigo, cheio de coisas que se foram ... ah tem lá no livrinho uma coisa de associar-se e dissociar-se de lembranças positivas/negativas, uma classificação de pessoas que são muito ou pouco associadas ou dissociadas positiva ou negativamente ... parece Tabelinha de Ciclo Menstrual ... zonas vermelhas e zonas escorregadias .... o livrinho moderninho não fala de blogs, nem de comunicação em tempo de tecnologia de ponta, fala de diário. Uma coisa real, que tem cheiro, consistência e peso. Subversivo!