Tuesday, March 06, 2012

em outro dezembro

Nasci serrana, em altitude considerável, no outono.

Algumas idas e vindas pelo sul do país e tornei-me serrana novamente, lá pras bandas do Centro Oeste, onde o inverno é mais seco que frio, em noites longas e estreladas.

Vivia em ponto de encontro: no alto da serra não tão alta, entre o Pantanal e o Rio Paraná. Encontro de estradas de ferro e rodovias. Das rotas de migração dos pássaros. Das gentes paraguaias, bolivianas, brasileiras. Serra enrugada e derruída, origem das planícies tranqüilas e férteis.

Mudei, mudei para outro ponto de encontro: encontro das correntes oceânicas e dos ventos.

Encontro das gentes nativas e estrangeiras. Encontro de cetáceos e alimentos. Dunas desenhadas ao vento.

Meu sotaque acusa tanta andança e matulas no farnel, que falo pouco e baixo, sussurro verdades que parecem mentiras. Olho o mar, com suas ondas salgadas, abertas em leques sobre a areia; respiro o céu dos dias quentes e repletos de luz desde as cinco da manhã ... sinto o estranhamento dos pés acostumados ao leito dos rios, ouvidos saudosos do silêncio e do burburinho na queda d´água, retinas e pele sequiosas da frescura das matas sombreadas ...

Encontro aquilo que me falta e assusta, ignorando estruturas tão antigas quanto ocultas, surpresa por não saber que sabia tão pouco ... encontro-me em um verão eterno.
(Original postado em dezembro/2004)
Fonte: MRE


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