em outro dezembro
Nasci serrana, em altitude considerável, no
outono.
Algumas idas e vindas pelo sul do país e
tornei-me serrana novamente, lá pras bandas do Centro Oeste, onde o inverno é
mais seco que frio, em noites longas e estreladas.
Vivia em ponto de encontro: no alto da serra não
tão alta, entre o Pantanal e o Rio Paraná. Encontro de estradas de ferro e
rodovias. Das rotas de migração dos pássaros. Das gentes paraguaias, bolivianas,
brasileiras. Serra enrugada e derruída, origem das planícies tranqüilas e
férteis.
Mudei, mudei para outro ponto de encontro:
encontro das correntes oceânicas e dos ventos.
Encontro das gentes nativas e estrangeiras.
Encontro de cetáceos e alimentos. Dunas desenhadas ao vento.
Meu sotaque acusa tanta andança e matulas no
farnel, que falo pouco e baixo, sussurro verdades que parecem mentiras. Olho o
mar, com suas ondas salgadas, abertas em leques sobre a areia; respiro o céu dos
dias quentes e repletos de luz desde as cinco da manhã ... sinto o estranhamento
dos pés acostumados ao leito dos rios, ouvidos saudosos do silêncio e do
burburinho na queda d´água, retinas e
pele sequiosas da frescura das matas sombreadas ...
Encontro aquilo que me falta e assusta, ignorando
estruturas tão antigas quanto ocultas, surpresa por não saber que sabia tão
pouco ... encontro-me em um verão eterno.
(Original postado em dezembro/2004)


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