Tuesday, February 28, 2012

fragmentos

... É quase espanto ... não há silêncio. Como se todos os ruídos da vida envolvessem uma única palavra: ORIGINAL.
Impressão confusa, incômoda ... saudade da minha ignorância, posto que enquanto não sabia, não sentia a ausência.

Agora isso: onde estão as origens?

Tratados e leituras em que fascinam-me os fragmentos de idéia ... como os textos que sumiram na rede. Ou os livros que emprestei e não devolveram. Além dos recortes que guardei para uma mudança que nunca aconteceu?

Enquanto estou no ônibus meu olhar invade janelas de casas alheias ... fragmentos como emblema de time de futebol, relógio de Taiwan, santinhos, quadros, estantes, televisão ... fragmentos.

Encontros e despedidas, recados, trechos de música, o carroceiro das frutas, o leiteiro, discussão dos vizinhos, o vendedor de sequilhos, mãe ralhando com filho ... mais fragmentos.

Até a rua é de paralelepípedo ... pra fechar a noite ZAP graças à comodidade do controle remoto. Em nada importa o melhor filme do ano ... basta saber quais as propagandas mais provocativas.

Fragmento é como um trampolim: você caminha pela prancha, poucos passos, para lançar no espaço e mergulhar ... onde? Mergulho onde der: em si mesmo, na representação de outra pessoa, no desconhecido, na indignação ... bastou um único comentário para que houvesse um mergulho tenebroso ... como é que não deu tempo? Mergulhei demais ... 

Um fragmento que torna febril, intenso e avassalador o desejo de entender o que está exposto. E por estar exposto a tanto tempo tornou-se vulgar, comum ... banalização da violência. Como pedir desculpas sem modificar o comportamento que fere.

Pior é a ressaca: encharcado pelo mergulho, intoxicado pelo que não é familiar, o organismo reage, o cérebro reclama. Menos da próxima vez ... promessas e ponderações.

Mas, basta uma boa idéia ... um golinho, ops, um fragmento que seja e a ponderação já era.

A origem que eu tento encontrar é efêmera e fugaz. A rua de paralelepípedo, o itinerário diário, as regravações sempieternas de The Taming of the Shrew ... têm um ciclo de vida maior que o do cotidiano mutante do bairro, da cidade, do litoral e do sertão.

Sunday, February 26, 2012

Convite para a festa do Oscar

A trilha sonora da animação Rio está concorrendo ao Oscar. A polêmica: toca ou não toca?
Toca o que os americanos conseguirem identificar.
Difícil imaginar:
Sapo Cai or Sapucaí?
Old black´s samba?
Maracatu?


MAS QUE NADA

Oariá raiô
Obá Obá Obá
Mas que nada
Sai da minha frente
Eu quero passar
Pois o samba está animado
O que eu quero é sambar
Este samba
Que é misto de maracatu
É samba de preto velho
Samba de preto tu
Mas que nada
Um samba como esse tão legal
Você não vai querer
Que eu chegue no final !

Se Carlinhos Brown vai ou não vai? Esse já embarcou! O resto do Brasil também?

Saturday, February 25, 2012

Dr. Spock curte ônibus urbano

Tudo bem, confesso, e sem constrangimento: Gosto de andar de ônibus!
Dr. Spock também gostaria? Não tão prático quanto o teletransportador da Enterprise, mas um pouco mais divertido.
É no ônibus que encontro pessoas. As que são de verdade.
O motorista muda, claro. Tem de todo tipo: o brigão; o caminhoneiro que transporta batatas; a tartaruga maluca; o paquerador que pisca para a imagem no retrovisor. Durante alguns meses tive que conviver com um "animador de começo do dia. Seis horas da manhã e ele entoando pagodes divertidos. Agora temos na linha de integração um simpático que diz bom dia pra todo mundo, na maior tranquilidade, sem se importar com as caras amarrotadas de sono. A linha 08 tem um motorista racista, quando o vejo espero o ônibus seguinte. Vinte minutos depois aparece o de olhos claros, com sua vigilante cobradora às costas.
Sento-me, sempre que possível, próximo aos cobradores. Hábito desde os tempos em que eu dormia encostada no vidro e eram obrigados a me chamar para que eu não passasse do ponto. Ambíguo assim, eu ronco e babo. Além do mais tem aqueles assentos invertidos, de onde vejo melhor as pessoas.

E tem pessoas!

Tem a gordinha de 1,5 m que me olha ofendida através das lentes do óculos, e trava a boca numa linha fina de batom vermelho. Spock!
Tem a vó que leva o neto para a escola, aproveitando agradáveis momentos familiares patrocinados pelo Estatuto, e, uma manhã, apareceu com um pente esquecido no cabelo.
Tem o cara muito alto, que anda curvado, tenso e desconfiado, e me encanta com aquele jeito perdido, deslocado entre os pequenos mortais. Costas largas, braços finos, gogó proeminente e óculos.
Não o vejo entrar no ônibus, mas quando ele espera para descer, junto aos outros no corredor, não tem como não ver o moço!
Foi em um começo de noite que eu o vi entrar, no ponto que antecede a parada em que ele desce. Foi quando senti as retinas vibrarem de curiosidade. Não era o ponto em que embarca usualmente. Ali estava muito perto da parada dele.

Spock! Spock! Spock!

Ele estava suando em bicas, as pernas enormes saindo da bermuda e um squeeze na mão. Sentou-se num banco adiante de mim e virou-se para o corredor. Não encarei, só tive vontade de me encolher. Não desceu na parada habitual, seguiu no ônibus, pois bem poderia dar a volta e retornar. Tive que passar por ele, cuidando para não chutar os pés enormes. Me senti muito pequena. Mas queria, queria muito, perfurar aquele crânio. Tamanho normal.

Mas o melhor, é a SUPER HIPER DESCONTRAÍDA evangélica vendedora de sorvetes. Eu a conheci na linha 36, quando ela era "secretária do lar" e embarcávamos juntas no horário das 6:15. Pense em uma pessoa que fala, pergunta e não espera resposta, ela mesma responde. Ainda hoje, quando a encontro, é uma conversa super animada, por ela.

Spock! Spock! Spock!Spock! Spock! Spock!Spock! Spock! Spock!Spock! Spock!

Eu só dou risada!



Monday, February 20, 2012

ideias de Pierre Lévy 1

Estou lendo AS TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA, de Pierre Lévy. O autor deixa bem claro que o assunto do livro é o ponto mais vulnerável do precursor La Machine universe, ou seja "as transmissões, traduções e deformações que modelam o devir social."
A primeira edição do livro data de 1997, mas as ideias são contemporâneas. O primeiro parágrafo é um tratado de filosofia, com sabor de coisa antiga, e, no entanto, incita uma reflexão fundamental: as coisas mudaram mesmo ou é só aparência?
As relações entre os homens, o trabalho, a própria inteligência dependem, na verdade, da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos."
O próprio autor reconhece que a leitura e a escrita, a evolução da impressão e a criação de sistemas de consulta sempre existiram no cotidiano humano, a informática engedra um novo modelo. Tão necessário e adequado quanto os primeiros jornais impressos. A "novidade" é a velocidade? Velocidade em quê? Se fossem só as transmissões seria fácil de apreender o valor dessa novidade, mas e quanto às traduções? 
Micropolíticas em atos. É um termo fundamental na interação com o pensamento de Lévy.
" Ao desfazer e refazer as ecologias cognitivas, as tecnologias intelectuais contribuem para fazer derivar as fundações culturais que comandam nossa apreensão do real."
" ... a sucessão da oralidade, da escrita e da informática como modos fundamentais de gestão social, não se dá por simples substituição, mas antes por complexificação e deslocamento de centros de gravidade."
"... certas técnicas de armazenamento e de processamento das representações tornam possíveis ou condicionam certas evoluções culturais, ao mesmo tempo em que deixam uma grande margem de iniciativa e interpretação para os protagonistas da história."
São os usuários das tecnologias que engedram os meios e as condições de comunicação. A ação individual adquire valor.