O texto, por Pierre Lévy
" O vocábulo texto,
etimologicamente, contém a antiga técnica feminina de tecer. E talvez o fato
desse tricô de verbos e nomes, através do qual tentamos reter o sentido, ser
designado por um termo quase têxtil não seja uma coincidência. A humanidade,
espécie falante, é também a raça que se veste. A roupa pacientemente tecida nos
contém, nos delimita, forma uma interface colorida entre o calor de nossas
peles e a rigidez do mundo.
Os coletivos também
cosem, através da linguagem e de todos os sistemas simbólicos de que dispõem,
uma tela de tecidos destinada a reuni-los e talvez a protegê-los dos estilhaços
dispersos, insensatos do futuro; uma capa de palavras capaz de abrigá-los da contingência
radical que perfura a camada protetora dos sentidos e mistura-se, à sua
revelia."
Lévy, Pierre. AS
TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA: O FUTURO DO PENSAMENTO NA ERA DA INFORMÁTICA.
Tradução Carlos Irineu da Costa.
Eu devia aprender francês para escapar das
traduções. Ainda assim, devoro as páginas, agradecida pela
chuva que inundou a cidade e me ilhou entre ideias que não são minhas, mas me
seduzem. Seguram-me.
Enquanto percorro a linha de raciocínio penso,
também, nas formas de expressão que elegi (junto com boa parte da humanidade).
É preciso comunicar-se na mesma linguagem? Nos adaptamos à diversidade de
expressões do cotidiano, constituímos nossos signos e símbolos, para transmiti-los
à nova geração que irá desconstituí-los e transformá-los. Recriando-os,
conformando-os à interpretação de uma outra humanidade.
Há uma sugestão em Levy que deslumbra: a
oralidade!
Somos, afinal, orais? Não há pontuação que dê
conta das nuances das emoções. O texto formal é, enquanto construção acordada
entre o autor e o leitor, um breve esforço de comunicação.
Seremos gentis, em um acordo tácito.
Concordaremos polidamente com o que for socialmente aceito ou politicamente
correto. Reproduziremos para significar e representar a felicidade como a
projetamos. Torre de Babel.
Como instalar pontes onde cada qual quer seu
discurso? Tanta coisa esquecida nas dobras do pensamento.
Os clãs. Versão europeia para as tribos, anterior
à formação dos feudos e da civilização. Esquecemos. Deixamos para trás, como
algo tosco.
Os guetos. As saídas.

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