Wednesday, March 14, 2012

O texto, por Pierre Lévy


" O vocábulo texto, etimologicamente, contém a antiga técnica feminina de tecer. E talvez o fato desse tricô de verbos e nomes, através do qual tentamos reter o sentido, ser designado por um termo quase têxtil não seja uma coincidência. A humanidade, espécie falante, é também a raça que se veste. A roupa pacientemente tecida nos contém, nos delimita, forma uma interface colorida entre o calor de nossas peles e a rigidez do mundo.
Os coletivos também cosem, através da linguagem e de todos os sistemas simbólicos de que dispõem, uma tela de tecidos destinada a reuni-los e talvez a protegê-los dos estilhaços dispersos, insensatos do futuro; uma capa de palavras capaz de abrigá-los da contingência radical que perfura a camada protetora dos sentidos e mistura-se, à sua revelia."

Lévy, Pierre. AS TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA: O FUTURO DO PENSAMENTO NA ERA DA INFORMÁTICA. Tradução Carlos Irineu da Costa.


Eu devia aprender francês para escapar das traduções. Ainda assim, devoro as páginas, agradecida pela chuva que inundou a cidade e me ilhou entre ideias que não são minhas, mas me seduzem. Seguram-me.

Enquanto percorro a linha de raciocínio penso, também, nas formas de expressão que elegi (junto com boa parte da humanidade). É preciso comunicar-se na mesma linguagem? Nos adaptamos à diversidade de expressões do cotidiano, constituímos nossos signos e símbolos, para transmiti-los à nova geração que irá desconstituí-los e transformá-los. Recriando-os, conformando-os à interpretação de uma outra humanidade.

Há uma sugestão em Levy que deslumbra: a oralidade!

Somos, afinal, orais? Não há pontuação que dê conta das nuances das emoções. O texto formal é, enquanto construção acordada entre o autor e o leitor, um breve esforço de comunicação.

Seremos gentis, em um acordo tácito. Concordaremos polidamente com o que for socialmente aceito ou politicamente correto. Reproduziremos para significar e representar a felicidade como a projetamos. Torre de Babel.


Como instalar pontes onde cada qual quer seu discurso? Tanta coisa esquecida nas dobras do pensamento.

Os clãs. Versão europeia para as tribos, anterior à formação dos feudos e da civilização. Esquecemos. Deixamos para trás, como algo tosco.

Os guetos. As saídas.

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