Saturday, March 31, 2012

nada permanece mais tempo do que o necessário

É ... tô ficando velha. Não que eu convença como uma exemplar senhora de meia-idade, com minhas roupinhas bem-comportadas e minha vidinha doméstica convencional, mas que eu tô ficando velha, ah isso é verdade.

Invariavelmente estou perdida no tempo. Algumas efemérides ajudam a compreender a passagem dos anos. Trilhas sonoras também.

Quando comecei a perceber?

As primeira rugas, os fios de cabelo clareando, a lei da gravidade ... os filmes que já não são encontrados nas locadoras, as locadoras que já nem existem, a dificuldade de encontrar agulhas para ouvir um bolachão no aparelho de som. O Scandurra ficou mais careca, a Leilane Neubarth ganhou uns quilinhos e rugas indisfarçáveis, passei a detestar chocolate ao leite, descobri que não sou suficientemente adestrada para os comandos do Play Station ... com tudo isso é possível conviver harmoniosamente. O problema são outros.

Primeiro que, embora eu seja egocêntrica, não me animo a dar ordens, não tenho a mínima inclinação para fiscalizar bolsos, agendas, celulares e afins, e, principalmente, prefiro que as pessoas sejam autônomas ou pelo menos que assumam que são responsáveis pela felicidade, pela saúde e pelo caminho que escolherem.

Segundo, eu faria tudo o que fiz outra vez. Mas a medida que minhas filhas caminham sozinhas ... surge o maior dilema: depois de educar para a vida, seria um contra-censo mantê-las sob as minhas saias. Não é possível fazer qualquer coisa que seja OUTRA VEZ ...

O que passou, o que foi feito, serviu à uma época, agora as necessidades, oportunidades e desafios são outros. Para nós, para mim, para cada uma delas. Curioso é que sempre tem alguém que resolve lembrar que elas “cresceram” ... Cresceram? Isso quer dizer que já escolhem os amigos e organizam a própria agenda ... deixando um espaço aberto na minha agenda ... mas isso não aconteceu em nenhuma data especial.

São passagens suaves, como um fractal, onde as pequenas alterações produzem progressivamente as alterações seguintes. Vida ampliada, novos rumos, novas alternativas. Nada permanece por muito tempo: tristeza, alegria, conquistas, negociações, investimentos, ... tudo passa, até aqueles momentos fundamentais de dúvida ou questionamento, nada permanece mais tempo do que o necessário.
(Publicado originalmente em dezembro/2004)

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