nada permanece mais tempo do que o necessário
É ... tô ficando velha. Não que eu convença como uma
exemplar senhora de meia-idade, com minhas roupinhas bem-comportadas e minha
vidinha doméstica convencional, mas que eu tô ficando velha, ah isso é verdade.
Invariavelmente estou perdida no tempo. Algumas efemérides ajudam a compreender a
passagem dos anos. Trilhas sonoras também.
Quando
comecei a perceber?
As primeira
rugas, os fios de cabelo clareando, a lei da gravidade ... os filmes que já não
são encontrados nas locadoras, as locadoras que já nem existem, a dificuldade de encontrar agulhas para ouvir um
bolachão no aparelho de som. O Scandurra ficou mais careca, a Leilane Neubarth ganhou uns quilinhos e rugas
indisfarçáveis, passei a detestar chocolate ao leite, descobri que não sou
suficientemente adestrada para os comandos do Play Station ... com tudo isso é
possível conviver harmoniosamente. O problema são outros.
Primeiro que,
embora eu seja egocêntrica, não me animo a dar ordens, não tenho a mínima
inclinação para fiscalizar bolsos, agendas, celulares e afins, e,
principalmente, prefiro que as pessoas sejam autônomas ou pelo menos que assumam
que são responsáveis pela felicidade, pela saúde e pelo caminho que
escolherem.
Segundo, eu
faria tudo o que fiz outra vez. Mas a medida que minhas filhas caminham sozinhas
... surge o maior dilema: depois de educar para a vida, seria um contra-censo
mantê-las sob as minhas saias. Não é possível fazer qualquer coisa que seja
OUTRA VEZ ...
O que passou, o que foi feito, serviu à uma
época, agora as necessidades, oportunidades e desafios são outros. Para nós,
para mim, para cada uma delas. Curioso é que sempre tem alguém que resolve
lembrar que elas “cresceram” ... Cresceram? Isso quer dizer que já escolhem os
amigos e organizam a própria agenda ... deixando um espaço aberto na minha
agenda ... mas isso não aconteceu em nenhuma data especial.
São passagens
suaves, como um fractal, onde as pequenas alterações produzem progressivamente
as alterações seguintes. Vida ampliada, novos rumos, novas alternativas. Nada
permanece por muito tempo: tristeza, alegria, conquistas, negociações,
investimentos, ... tudo passa, até aqueles momentos fundamentais de dúvida ou
questionamento, nada permanece mais tempo do que o necessário.
(Publicado originalmente em dezembro/2004)

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