Dr Spock em festa
A magrelinha me encarava.
No meio de toda aquela agitação de crianças, garçonetes com porções generosamente racionadas, as pessoas mudam de lugar, há sempre muita novidade, muita risada, um ambiente descontraído. Eu costumo ficar longe da circulação, o que me obrigou a sentar-me de frente para o salão. Conversa vai, conversa vem ... a magrelinha continuava me encarando. Aí eu tive aquela sensação familiar de que não estava entendendo alguma coisa.
Prestei atenção e a magrelinha estava acompanhada por um cara mais velho e mal cuidado. Ninguém que mereça mais atenção que a pizza maravilhosamente perfumada em meu prato.
Mal cuidado mesmo. Enrugado, com uma camiseta de quem saiu do shopping popular, uma bermuda xadrez e os cabelos desalinhados. Olhei assim, direto e sem piedade. E sem um pingo de juízo. A magrelinha me encarava. Olhei para ela: arrumadinha, limpa e tensa.
Depois concentrei-me na conversa em torno de mim. Aí vem aquela história arquetípica de mulher ir ao banheiro em bando ruidoso. Como um anúncio: estamos indo ao banheiro! Senhores mal intencionados saiam do caminho que somos muitas e escandalosas!
Funciona desde o tempo em que o banheiro era casinha e ficava instalado afastado da casa principal.
Eu passei pela mesa, e a magrelinha se esticou toda. Ele não estava lá. Onde era o banheiro masculino?
Quando voltamos o casal havia desaparecido.
Dr. Spock poderia pensar como as pessoas são ridículas. Um dos motivos dos nossos risos à mesa foi o fato de em família nos parecermos fisicamente. As semelhanças entre eu e minha filha são impressionantes, muda a cor e a quantidade de rugas. É bom estarmos juntos!
Por que eu não sorriria para todos os lados se estava entre amados?
Por que raios alguém se aborrece porque eu chamei a atenção?
Dr. Spock chamaria a isso de ciúmes? Senti a agitação familiar que a curiosidade causa. Eu gostaria de adentrar aquele cérebro inseguro. Como uma pessoa chega a esse ponto?
Existe uma remota possibilidade de eu conhecer aquelas pessoas. Mas não convivo com elas. Não deveria provocar a menor reação, até porque não eram tão jovens que justificasse imaturidade.
Mas a indignação da moça era visível. Eu sou mais bela que ela, minha prima é mais bela do que eu. Sem falar em minha filha. Nem de longe sou a Miss da festa. Ela estava sentada ao lado dele. Bastava mantê-lo interessado na conversa que ele se voltaria para ela. As coisas deveriam ser simples. Nem culpada me sinto.
Spock, spock, minhas retinas vibram de curiosidade.
