fragmentos
... É quase espanto ... não há silêncio. Como se todos os
ruídos da vida envolvessem uma única palavra: ORIGINAL.
Impressão confusa, incômoda ... saudade da minha
ignorância, posto que enquanto não sabia, não sentia a ausência.
Agora isso: onde estão as origens?
Tratados e leituras em que fascinam-me os fragmentos de
idéia ... como os textos que sumiram na rede. Ou os livros que emprestei e não devolveram. Além dos recortes que guardei para uma mudança que nunca aconteceu?
Enquanto estou no ônibus meu olhar invade janelas de
casas alheias ... fragmentos como emblema de time de futebol, relógio de Taiwan,
santinhos, quadros, estantes, televisão ... fragmentos.
Encontros e despedidas, recados, trechos de música, o
carroceiro das frutas, o leiteiro, discussão dos vizinhos, o vendedor de
sequilhos, mãe ralhando com filho ... mais fragmentos.
Até a rua é de paralelepípedo ... pra fechar a noite ZAP
graças à comodidade do controle remoto. Em nada importa o melhor filme do ano
... basta saber quais as propagandas mais provocativas.
Fragmento é como um trampolim: você caminha pela prancha,
poucos passos, para lançar no espaço e mergulhar ... onde? Mergulho onde der: em
si mesmo, na representação de outra pessoa, no desconhecido, na
indignação ... bastou um único comentário para
que houvesse um mergulho tenebroso ... como é que não deu tempo? Mergulhei
demais ...
Um fragmento que torna febril, intenso e avassalador o
desejo de entender o que está exposto. E por estar exposto a tanto tempo
tornou-se vulgar, comum ... banalização da violência. Como pedir desculpas sem
modificar o comportamento que fere.
Pior é a ressaca: encharcado pelo mergulho, intoxicado
pelo que não é familiar, o organismo reage, o cérebro reclama. Menos da próxima
vez ... promessas e ponderações.
Mas, basta uma boa idéia ... um golinho, ops, um
fragmento que seja e a ponderação já era.
A origem que eu tento encontrar é efêmera e fugaz. A rua
de paralelepípedo, o itinerário diário, as regravações sempieternas de The Taming of the Shrew ... têm um
ciclo de vida maior que o do cotidiano mutante do bairro, da cidade, do litoral
e do sertão.

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