Dr. Spock curte ônibus urbano
Tudo bem, confesso, e sem constrangimento: Gosto de andar de ônibus!
Dr. Spock também gostaria? Não tão prático quanto o teletransportador da Enterprise, mas um pouco mais divertido.
É no ônibus que encontro pessoas. As que são de verdade.
O motorista muda, claro. Tem de todo tipo: o brigão; o caminhoneiro que transporta batatas; a tartaruga maluca; o paquerador que pisca para a imagem no retrovisor. Durante alguns meses tive que conviver com um "animador de começo do dia. Seis horas da manhã e ele entoando pagodes divertidos. Agora temos na linha de integração um simpático que diz bom dia pra todo mundo, na maior tranquilidade, sem se importar com as caras amarrotadas de sono. A linha 08 tem um motorista racista, quando o vejo espero o ônibus seguinte. Vinte minutos depois aparece o de olhos claros, com sua vigilante cobradora às costas.
Sento-me, sempre que possível, próximo aos cobradores. Hábito desde os tempos em que eu dormia encostada no vidro e eram obrigados a me chamar para que eu não passasse do ponto. Ambíguo assim, eu ronco e babo. Além do mais tem aqueles assentos invertidos, de onde vejo melhor as pessoas.
E tem pessoas!
Tem a gordinha de 1,5 m que me olha ofendida através das lentes do óculos, e trava a boca numa linha fina de batom vermelho. Spock!
Tem a vó que leva o neto para a escola, aproveitando agradáveis momentos familiares patrocinados pelo Estatuto, e, uma manhã, apareceu com um pente esquecido no cabelo.
Tem o cara muito alto, que anda curvado, tenso e desconfiado, e me encanta com aquele jeito perdido, deslocado entre os pequenos mortais. Costas largas, braços finos, gogó proeminente e óculos.
Não o vejo entrar no ônibus, mas quando ele espera para descer, junto aos outros no corredor, não tem como não ver o moço!
Foi em um começo de noite que eu o vi entrar, no ponto que antecede a parada em que ele desce. Foi quando senti as retinas vibrarem de curiosidade. Não era o ponto em que embarca usualmente. Ali estava muito perto da parada dele.
Spock! Spock! Spock!
Ele estava suando em bicas, as pernas enormes saindo da bermuda e um squeeze na mão. Sentou-se num banco adiante de mim e virou-se para o corredor. Não encarei, só tive vontade de me encolher. Não desceu na parada habitual, seguiu no ônibus, pois bem poderia dar a volta e retornar. Tive que passar por ele, cuidando para não chutar os pés enormes. Me senti muito pequena. Mas queria, queria muito, perfurar aquele crânio. Tamanho normal.
Mas o melhor, é a SUPER HIPER DESCONTRAÍDA evangélica vendedora de sorvetes. Eu a conheci na linha 36, quando ela era "secretária do lar" e embarcávamos juntas no horário das 6:15. Pense em uma pessoa que fala, pergunta e não espera resposta, ela mesma responde. Ainda hoje, quando a encontro, é uma conversa super animada, por ela.
Spock! Spock! Spock!Spock! Spock! Spock!Spock! Spock! Spock!Spock! Spock!
Eu só dou risada!


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