Wednesday, March 13, 2013

O desejo de autonomia (1)


Em geral estabelecemos a organização das atividades e situações de aprendizagem no âmbito do planejamento da sala de aula. Todavia os alunos estão inseridos em um contexto mais amplo, que é o da própria instituição de ensino, enquanto espaço de aprendizagem.

As peculiaridades da “aprendizagem” como é mais conhecida, se revelam na própria denominação: Curso de formação inicial em um eixo formativo. Pode-se deduzir, pela denominação, que tratasse do início do processo de profissionalização, compreendendo situações de sistematização do conhecimento prévio do aluno e mediação de outras situações para o desenvolvimento de competências diversas, associadas a comportamentos, hábitos e atitudes (doravante CHA) requeridos pelo mercado de trabalho e essenciais ao desenvolvimento profissional. Subentende-se que o aluno está em processo de aprendizagem e, consequentemente, ainda não está ciente da adequação dos CHA ao ambiente profissional.

Superado o conflito de perceber a “aprendizagem” sem confundi-la, é possível debater suas demandas. Entre as demandas mais conhecidas, administrar o uso do espaço de convivência oculta uma questão fundamental: para quê os alunos cursam a “aprendizagem”?

Ainda que seja pelo cumprimento da lei, a “Aprendizagem” é a oportunidade para formar profissionais interessados em aprimoramento contínuo. Oculta-se, ainda, na finalidade a relevância do desenvolvimento de competências amplas, que não são apenas técnicas, mas que referem-se ao CHA.

As turmas de “Aprendizagem” são formadas por jovens que assumem responsabilidades, confrontados pela administração do tempo e definição de prioridades, ou seja, jovens que vivenciam a transição para a vida adulta. A maioria consciente de que é sujeito, que terá de tomar decisões e arcar com as consequências de suas atitudes. A ética profissional é embrionário nesses jovens que desejam produzir, construir o próprio futuro e participar da vida em sociedade.

O desenvolvimento da ética profissional requer que se trate com coerência e realismo a convivência dos (e com os) alunos de “Aprendizagem”. Muitas das questões polêmicas envolvendo tais alunos são de essência ética. De forma prática e objetiva: o que é certo ou errado; o que é apropriado ou não; o que é conveniente ou não. O “por que”, a comparação, as atitudes voluntariosas estão relacionados ao senso crítico. Muitos dos conflitos se dão devido ao choque entre a percepção do aluno e a determinação dos educadores.

Ao deslocarmos nossa perspectiva para analisarmos as questões comportamentais (e direcioná-las de forma produtiva), adotando a percepção do aluno podemos elencar uma série de contradições que dificultam a compreensão da referência, e, também, a formação de valores e princípios para o desenvolvimento ético. A empatia é tão necessária quanto a referência quando desejamos estimular comportamentos, hábitos e atitudes; estes podem ser direcionados e formarem a base de desempenhos criativos, inovadores e de alta funcionalidade.

Alguns pontos podem ser analisados de forma racional, de maneira a conferir segurança e coerência ao discurso que dirige a ação. A construção do discurso político-pedagógico aponta para a autonomia do sujeito, entretanto, enquanto práxis,  algumas amarras seguram o desenvolvimento da proposta. A falta de coesão pode tornar o processo educativo desgastante para todos os atores envolvidos no processo, sendo mais sensato buscar coerência, e se desejamos autonomia, devemos nos questionar acerca das oportunidades de desenvolvimento que oferecemos ou negamos aos alunos.

Nicolelli, em seu livro O nosso eu, comenta que na ciência as batalhas mais sangrentas se dão por motivos insignificantes. Na educação não é diferente, como educadores do ensino profissional apostamos na formação de profissionais que contribuam com a sociedade. E como educadores somos reflexos das tendências de educação que escolhemos, adotamos princípios que nos individualizam, e construímos a práxis. Como educadores temos uma série desafios a superar (para logo em seguida encontrar outros), entre eles superar hábitos e criar novas formas de condução do processo de mediação e interação social.

Por meio da interação social são estabelecidos os acordos de convivência. São acordos tácitos ou objetivamente acordados, mas subexistem definindo comportamentos, hábitos e atitudes que podem ser cooperativos, invasivos, hostis, receptivos, permissivos, acolhedores, entre tantos outros que poderiam ser relacionados.

A disciplina é inerente ao processo de mediação, e esta, por sua vez, está no âmbito dos comportamentos, hábitos e atitudes mobilizados para o desenvolvimento profissional. Neste artigo, adota-se como princípio fundamental de que o sujeito de ação (o aluno), uma vez envolvido no processo de desenvolvimento de competências, coopera. E coopera de forma integral e consciente.

Algumas situações relativas à disciplina (ou falta dela) podem ser superadas a partir da adoção de referências claras e fundamentadas. Tomemos por exemplo o fardamento. Quando estabelecemos a adequação de algum item, os alunos tendem a aceitar e seguir a orientação, realizando ajustes que o individualizem na coletividade. A permissividade ou flexibilização da referência confunde e gera indignação, criando reações negativas que podem ser reproduzidas pelos alunos, considerando a interação social. A coerência e o respeito ao acordo produzem reações de aceite e cooperação. Embora isto seja óbvio, convém lembrar que o comportamento, os hábitos e as atitudes dos educadores também contribuem para manter o acordo. Ao estabelecer para o aluno uma referência com a qual o aluno pode administrar suas decisões (que não são poucas) os educadores promovem situações de negociação e exercício da autonomia.

O uso de celulares é ainda mais polêmico. Proibido? O que é proibido? Carregar a bateria do celular que não pode ser usado? O uso do telefone, da calculadora, do relógio ... proibição de quê, afinal? De se comunicar? De acessar a internet em busca de informações sobre o assunto discutido em sala de aula? Depois do celular virão os tablets, e depois outras tecnologias que desencadearão novos acordos, diferentes alternativas; todavia a necessidade de acordo, de coerência, permanece e são excelentes oportunidades para promover a reflexão sobre o comportamento ético, que na sala de aula se manifesta como esconder o celular entre as pernas para o professor não ver, numa infração ao acordo unilateral. Historicamente (lembre-se de sua vida de estudante) alunos sempre encontram formas de ludibriar a vigilância, portanto é menos desgastante, mais produtivo contribuir para que o sujeito de ação seja também ético, dando-lhe a oportunidade de experenciar e ser orientado a agir com dignidade.

O desenvolvimento do senso crítico, da inteligência emocional e de estratégias de relacionamento interpessoal se dão pela convivência. Normas e regras estabelecidas em acordos coerentes produzem situações desafiadoras, mas que produzem resultados positivos.

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