O desejo de autonomia (1)
Em geral
estabelecemos a organização das atividades e situações de aprendizagem no
âmbito do planejamento da sala de aula. Todavia os alunos estão inseridos em um
contexto mais amplo, que é o da própria instituição de ensino, enquanto espaço
de aprendizagem.
As peculiaridades da
“aprendizagem” como é mais conhecida, se revelam na própria denominação: Curso
de formação inicial em um eixo formativo. Pode-se deduzir, pela denominação,
que tratasse do início do processo de profissionalização, compreendendo
situações de sistematização do conhecimento prévio do aluno e mediação de
outras situações para o desenvolvimento de competências diversas, associadas a
comportamentos, hábitos e atitudes (doravante CHA) requeridos pelo mercado de
trabalho e essenciais ao desenvolvimento profissional. Subentende-se que o
aluno está em processo de aprendizagem e, consequentemente, ainda não está
ciente da adequação dos CHA ao ambiente profissional.
Superado o conflito
de perceber a “aprendizagem” sem confundi-la, é possível debater suas demandas.
Entre as demandas mais conhecidas, administrar o uso do espaço de convivência
oculta uma questão fundamental: para quê os alunos cursam a “aprendizagem”?
Ainda que seja pelo
cumprimento da lei, a “Aprendizagem” é a oportunidade para formar profissionais
interessados em aprimoramento contínuo. Oculta-se, ainda, na finalidade a
relevância do desenvolvimento de competências amplas, que não são apenas
técnicas, mas que referem-se ao CHA.
As turmas de
“Aprendizagem” são formadas por jovens que assumem responsabilidades,
confrontados pela administração do tempo e definição de prioridades, ou seja,
jovens que vivenciam a transição para a vida adulta. A maioria consciente de
que é sujeito, que terá de tomar decisões e arcar com as consequências de suas
atitudes. A ética profissional é embrionário nesses jovens que desejam
produzir, construir o próprio futuro e participar da vida em sociedade.
O desenvolvimento da
ética profissional requer que se trate com coerência e realismo a convivência
dos (e com os) alunos de “Aprendizagem”. Muitas das questões polêmicas
envolvendo tais alunos são de essência ética. De forma prática e objetiva: o
que é certo ou errado; o que é apropriado ou não; o que é conveniente ou não. O
“por que”, a comparação, as atitudes voluntariosas estão relacionados ao senso
crítico. Muitos dos conflitos se dão devido ao choque entre a percepção do
aluno e a determinação dos educadores.
Ao deslocarmos nossa
perspectiva para analisarmos as questões comportamentais (e direcioná-las de
forma produtiva), adotando a percepção do aluno podemos elencar uma série de
contradições que dificultam a compreensão da referência, e, também, a formação
de valores e princípios para o desenvolvimento ético. A empatia é tão
necessária quanto a referência quando desejamos estimular comportamentos,
hábitos e atitudes; estes podem ser direcionados e formarem a base de
desempenhos criativos, inovadores e de alta funcionalidade.
Alguns pontos podem
ser analisados de forma racional, de maneira a conferir segurança e coerência ao discurso que dirige a ação. A construção do discurso
político-pedagógico aponta para a autonomia do sujeito, entretanto, enquanto
práxis, algumas amarras seguram o
desenvolvimento da proposta. A falta de coesão pode tornar o processo educativo
desgastante para todos os atores envolvidos no processo, sendo mais sensato
buscar coerência, e se desejamos autonomia, devemos nos questionar acerca das
oportunidades de desenvolvimento que oferecemos ou negamos aos alunos.
Nicolelli, em seu
livro O nosso eu, comenta que na ciência as batalhas mais sangrentas se dão por
motivos insignificantes. Na educação não é diferente, como educadores do ensino
profissional apostamos na formação de profissionais que contribuam com a
sociedade. E como educadores somos reflexos das tendências de educação que
escolhemos, adotamos princípios que nos individualizam, e construímos a práxis.
Como educadores temos uma série desafios a superar (para logo em seguida
encontrar outros), entre eles superar hábitos e criar novas formas de condução
do processo de mediação e interação social.
Por meio da interação
social são estabelecidos os acordos de convivência. São acordos tácitos ou
objetivamente acordados, mas subexistem definindo comportamentos, hábitos e
atitudes que podem ser cooperativos, invasivos, hostis, receptivos,
permissivos, acolhedores, entre tantos outros que poderiam ser relacionados.
A disciplina é
inerente ao processo de mediação, e esta, por sua vez, está no âmbito dos
comportamentos, hábitos e atitudes mobilizados para o desenvolvimento
profissional. Neste artigo, adota-se como princípio fundamental de que o
sujeito de ação (o aluno), uma vez envolvido no processo de desenvolvimento de
competências, coopera. E coopera de forma integral e consciente.
Algumas situações
relativas à disciplina (ou falta dela) podem ser superadas a partir da adoção
de referências claras e fundamentadas. Tomemos por exemplo o fardamento. Quando
estabelecemos a adequação de algum item, os alunos tendem a aceitar e seguir a
orientação, realizando ajustes que o individualizem na coletividade. A
permissividade ou flexibilização da referência confunde e gera indignação,
criando reações negativas que podem ser reproduzidas pelos alunos, considerando
a interação social. A coerência e o respeito ao acordo produzem reações de
aceite e cooperação. Embora isto seja óbvio, convém lembrar que o
comportamento, os hábitos e as atitudes dos educadores também contribuem para
manter o acordo. Ao estabelecer para o aluno uma referência com a qual o aluno
pode administrar suas decisões (que não são poucas) os educadores promovem
situações de negociação e exercício da autonomia.
O uso de celulares é
ainda mais polêmico. Proibido? O que é proibido? Carregar a bateria do celular
que não pode ser usado? O uso do telefone, da calculadora, do relógio ... proibição
de quê, afinal? De se comunicar? De acessar a internet em busca de informações
sobre o assunto discutido em sala de aula? Depois do celular virão os tablets,
e depois outras tecnologias que desencadearão novos acordos, diferentes
alternativas; todavia a necessidade de acordo, de coerência, permanece e são
excelentes oportunidades para promover a reflexão sobre o comportamento ético,
que na sala de aula se manifesta como esconder o celular entre as pernas para o
professor não ver, numa infração ao acordo unilateral. Historicamente
(lembre-se de sua vida de estudante) alunos sempre encontram formas de
ludibriar a vigilância, portanto é menos desgastante, mais produtivo contribuir
para que o sujeito de ação seja também ético, dando-lhe a oportunidade de
experenciar e ser orientado a agir com dignidade.
O desenvolvimento do
senso crítico, da inteligência emocional e de estratégias de relacionamento
interpessoal se dão pela convivência. Normas e regras estabelecidas em acordos
coerentes produzem situações desafiadoras, mas que produzem resultados
positivos.

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