Tuesday, May 15, 2012

Há muito tempo todos os dias são normalmente úteis.

Festa de aniversário. Gomar, 85. Desenganada, debilitada. Momentos de lucidez cada vez mais raros e curtos.
Ciente de que era aniversário exigiu presente e adormeceu satisfeita por ter reunido a família uma vez mais.

Também era minha festa de aniversário. Como sempre foi: os dois aniversários comemorados juntos, pela proximidade das datas.
Se há algo de lúcido em mim é frieza. Mudei de cidade para ficar mais perto, mas ela já não pode me aconchegar nos braços, agora sou eu que a pego no colo. Aguardo que morra, que parta, que seja desligada. Espero, sem esperança.

E, como se não bastasse, a lucidez trouxe outras certezas. As minhas emoções se acomodaram sutilmente. Nenhum murmúrio, nenhum presságio. Resta a calma.

No meio da festa, meu tio, ressabiado, lembrou que eu tenho autorização para cuidar do enterro na ausência dele. Eu sei. Assunto necessário, já que eu sou acostumada com a morte. Até em festa de aniversário.

Se eu vou ficar feliz em enterrar minha avó?
Prometi a ela cuidar do corpo e colocá-lo no caixão, sem esquecer os sapatos porque ela insiste em chegar ao céu calçada. Ela mesma escolheu o vestido, quando ainda estava lúcida. Capela, corbélias, velas ... é coisa pouca.
Enterrá-la como ela quer, será mais uma prova de amor e de obediência.

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